top of page

Duro golpe para o Douro vinhateiro que quer reformas urgentes

  • pdsfernandes
  • 29 de set. de 2024
  • 9 min de leitura

Atualizado: 18 de jun.


Duro golpe para o Douro vinhateiro que quer reformas urgentes

(foto: LUSA/PEDRO SARMENTO COSTA)


A região do Douro é classificada como património mundial da UNESCO e a vinha caracteriza-se pelas suas encostas íngremes e parcelas difíceis de trabalhar. Os seus custos de produção são elevados, entre os mais elevados do mundo, e com rendimentos baixos. Acrescente-se a isto o descontentamento global de vinhos doces e fortificados: no caso do Porto, as vendas caíram quase 25% em volume nos últimos vinte anos.


Insatisfação do consumidor, sistema inadequado

Numa carta aberta publicada durante o verão, intitulada “O Douro merece melhor” , os maiores nomes do setor – Symington, Graham, Niepoort, Ferreira e outros Braga – fizeram soar o alarme. “ Apesar destas mudanças profundas, o quadro regulamentar manteve-se essencialmente inalterado durante quase 100 anos. O sistema actual promove distorções devastadoras que têm impacto não só no preço das uvas, mas também na sustentabilidade socioeconómica dos viticultores, das empresas e no futuro dos seus vinhos nos mercados internacionais.


No caso particular, existe um sistema histórico de “benefício” que desde a década de 1930 fixa a quantidade de uvas destinadas à produção de Vinho do Porto, onde a vinha está estruturada em torno de pequenos produtores cuja rentabilidade é muito precária.

O grande problema neste sistema de benefício é que a esmagadora maioria dos viticultores durienses têm uma pequena parcela que engloba este sistema, sendo 80% (em média) da sua produção fora deste sistema. Isto significa a diferença entre o viticultor receber em torno de 1000 Euros (no caso das uvas que se encontram parceladas neste sistema) e os 300/400 euros (nas que não se encontram) pelas suas uvas por pipa (que equivale a 750KG).


O estabelecimento dos marcos pombalinos no tempo do Marquês de Pombal no Séc. XVIII, determinava a delimitação das áreas abrangidas pelo tal sistema, baseado em classificação de letras (que vai da letra A à F). Nessa altura, os terrenos mais bem cotados eram os próximos ao rio Douro, ou seja, vinhas de cotas mais baixas, solos xistosos e com uma pluralidade de castas (castas todas misturadas). Com os projetos vitis, que começaram a surgir na década de 90, grande parte das pequenas parcelas existentes no Douro foram adquiridas por grandes Casas (principais famílias e produtores de Vinho do Porto existentes no Douro), que assim reconverteram essas vinhas, com vista a homogeneizar as castas existentes e garantir maior capacidade de trabalho pela mecanização.


Este movimento, deu aso a que os produtores pequenos, que foram conservando as suas pequenas parcelas, fossem perdendo algum do seu benefício e, em consonância esse beneficio fosse direcionado para essas grandes casas, visto que o fator produtividade também tem peso no sistema de classificação de beneficio.


Com isto, os pequenos produtores foram perdendo capacidade financeira, pois passaram a ter menos uvas com benefício, aliado aos custos cada vez maiores de produção (produtos fitofármacos e mão de obra), direcionando, nalguns casos, ao abandono da atividade.

Além disso, considerando as alterações climáticas atuais, assistiu-se a que, com o tempo, as vinhas que tinham maior potencial de produção de vinho (ou seja as que se encontram abrangidas pelo beneficio) foram-se tornando cada vez com menor potencial. Isto acontece essencialmente porque devido à sua altitude e proximidade com o Rio, produzam cada vez menos uvas, mais afetadas por escaldões das temperaturas elevadas, e com bagos com menor índice de ácido málico, essencial na fermentação malolática, mais tânicos, com maior teor alcoólico e menor acidez. Ao mesmo tempo, assiste-se a cada vez uma maior tendência por parte do consumidor final de vinho, num consumo de vinhos menos tânicos, estruturados e com teores alcoólicos menores o que é inversamente proporcional às melhores vinhas abrangentes pelo sistema de benefício.


O sistema de benefício, carece, depois de 90 anos de existência, de uma restruturação não só por causa das alterações climáticas, onde hoje vinhas com maior altitude já fazem vinhos de melhor qualidade, como também, pelas práticas da própria viticultura, com viticultores cada vez mais preparados, máquinas e equipamentos que possibilitam melhor surriba, maior conhecimento das doenças fitossanitárias, entre outra razoes.


Os prejuízos para os viticultores são evidentes, levando ao abandono das vinhas e ao despovoamento da região. Aliado a isto tudo, ainda existe um pormenor que é um pro maior: há cada vez menos mão de obra para a produção da uva, “obrigando” a que o viticultor faça tudo por si só e com uma idade avançada.


Assiste-se agora a alguns produtores que compram uva a “remeterem informação” aos seus viticultores que não ficarão com uma parte considerável das suas uvas, remetendo para que os mesmos as tenham de deixar penduradas nas videiras.


No caso, de colocarem as suas uvas em adegas cooperativas, existe a “segurança” de que aceitam as uvas todas, face aos cadernos de encargos e estatutos legais. Contudo, com outro pormenor, vejamos:

- grande parte das adegas não diz qual o preço a que vão pagar as uvas. Só no final da colheita e após algum tempo, o viticultor vai poder saber se valeu ou não a pena colher as suas uvas sedentárias, pois arrisca-se a ter de pagar para levar essas uvas. Não só não teve lucro como ainda teve de pagar para as levar.

- por outro lado, as adegas pagam 2/3 anos depois da colheita, com uma pequena diferença: não são considerados os valores das taxas de inflação, o que significa que, se a adega me pagar daqui a dois anos 150€ por pipa de uvas, em 2026 terei menor capacidade de compra para comprar os meus adubos, sulfates, combustíveis que hoje. Se, por outro lado, eu acordar com uma empresa de venda de produtos vitivinícolas pagar durante dois anos, garanto que vão-me cobrar a inflação e provavelmente juros.


15 milhões de euros para destilação de crise de vinhos portugueses

A Comissão Europeia anunciou que vai mobilizar 15 milhões de euros da reserva agrícola para apoiar os produtores de vinho portugueses que enfrentam, segundo o seu Ministério da Agricultura, “graves perturbações do mercado”.

A combinação de vários fatores levou as autoridades portuguesas a solicitar, pelo segundo ano consecutivo, ajuda à destilação de crise. Em 2023, Portugal beneficiou de 20 milhões de euros neste sentido e este ano, como a situação não melhorou devido a uma queda nas exportações em 2023 e aumento na colheita de 10% face à campanha anterior. Outra causa foram as importações a granel provenientes de Espanha que contribuíram para inflacionar os stocks excedentários, havendo concorrência desleal e pondo em causa a rotulagem enganosa quanto à origem dos produtos.


O Ministério da Agricultura português afirma que o apoio de 15 milhões de euros é “ uma medida de crise temporária e excepcional que não se repetirá no futuro ”. José Manuel Fernández, Ministro da Agricultura, propôs: aumentar os montantes atribuídos à promoção, eliminar barreiras aduaneiras em países terceiros para facilitar a exportação dos, reforçar as fiscalizações para evitar importações ilegais de vinho e apertar os critérios de concessão deste apoio.


Ir um pouco mais longe:

O grande problema do Douro tem sido apontado pela importação das aguardentes usadas no Vinho Do Porto terem origem em outros países, o que falseia a Denominação de Origem Protegida de um tipo de vinho único no mundo, cuja garrafa contem 20% do seu conteúdo de um produto originário não só fora da região do Douro como, originário de Espanha, França e Holanda, pondo em causa a legalidade, especificidade, terroir ou que lhe queiram chamar do produto final.


Por outro lado, outros há, que apontam que os culpados são os Symingtons, as Sogeninus, as Sograpes, e as Fladgate Partnerships, que exploram os pequenos viticultores. (para mim não e já vamos ver porque).

Historicamente a região do Douro sempre teve problemas no setor do vinho. A D. Adelaide Ferreirinha comprou os terrenos aos viticultores e doou os mesmos de novo aos antigos proprietários para que pudessem dar continuidade ao legado, em vez de os venderem aos ingleses.

A génese da criação do Vinho do Porto nem sequer é nossa. Foram os britânicos que criaram a marca vinho do Porto, que a comercializaram, internacionalizaram e promoveram e até os nomes são dessa origem (vintage, ruby e tawny).

Não conheço sequer um vinho no mundo em que o nome da região não é associado à sua origem - no Porto nem sequer há uvas e chama-se vinho do Porto e não vinho do Douro. Portanto, a questão de usarmos ou não uma aguardente 100% originária do Douro como constituição da salvação de todos os problemas é uma falácia.

O Vinho do Porto, na prática, sempre foi um produto não original a 100% da região.


Talvez fosse melhor, “ir um pouco mais longe” e analisar quais os riais problemas que existem na região e que, uma vez resolvidos, solucionassem a causa. Para fazer isso precisamos de deixar de fora demagogias e ter uma visão mais aberta.

· Para começar, nós portugueses nem sequer consumimos Vinho do Porto. Na teoria sim, dizem as estatísticas, mas na prática não: quem o consome são os turistas no território nacional, o que é uma coisa diferente. É a diferença entre consumo regular e consumo de “passagem”. Se não conseguimos sequer “convencer” os nossos a consumir o nosso vinho único, como queremos aumentar as vendas na sua totalidade?

· Depois, o consumo de qualquer tipo de vinho doce baixou a nível mundial: todos sem exceção baixaram: seja Tokaj, Moscatel ou Sauternes. O que antes custava 30 euros compra-se abaixo dos 8 euros. Portanto há aqui uma tendência global e internacional de baixa de consumo. Só com a noção disto é que podemos definir estratégias de atuação. Aqui: ou promovemos melhor o vinho, ou diversificamos o tipo de vinho ou damos-lhe um uso diferente (como o Porto tónico).

· E quanto ao problema das casas “estrangeiras” que estão no Douro? São empresas essencialmente familiares e, como tal, algumas já têm tataranetos que nasceram, casaram e vivem em Portugal. Não será que podemos dizer que são portugueses? A Symington doa ambulâncias todos os anos a corporações de bombeiros - podia pegar nesse dinheiro e gastar em festas, a comprar Ferraris, ilhas, e vestir Yves Saint Laurent, mas em vez disso, passam a pé a passear o seu cão com uma roupa simples e de forma humilde.Por época da Pascoa, enquanto um determinado produtor português reunia um almoço pomposo com cerca de 400 pessoas no Douro, A Symington reunia no meio de uma vinha 4/5 pessoas num churrasco.


O problema não são os “estrangeiros”, o problema somos nós.

Somos pessoas mentalmente “fracas”: volto a dizer o que já disse em outro post: temos mente fechada, medo de sair da zona de conforto e falamos mal uns dos outros e não éramos assim. Somos o contrário dos nossos ilustres navegadores na era dos Descobrimentos que partiram em busca do desconhecido. Falta-nos visão, união e capacidade de análise.


Gerimos empresas vitivinícolas baseado na vaidade em vez do orgulho (parece igual, mas são coisas bem diferentes) - as empresas de vitivinicultura, são empresas e temos de as gerir dessa forma e não com base em egos.

· Se não nos manifestamos, está tudo bem. A exemplo disso, tivemos umas eleições, cujos debates políticos foram marcados por temas como segurança, saúde, ensino, descida de impostos, blá blá blá e sobre agricultura, já nem falo em viticultura, não se discutiu absolutamente NADA! Se não se fala é porque não há um problema, e se não se fala num problema ele não existe e todos nós sabemos que há. Falta novamente a tal união. Os nossos navegadores remavam todos na mesma direção, não ficavam á deriva á espera que alguém fizesse alguma coisa. A grande verdade é que todos, mas mesmo todos os que fazem parte da cadeia do setor têm responsabilidades na sua atuação. Desde enólogos, produtores, distribuidores e empresários. E neste lote a mim me incluo. Mas quando se tem uma visão aberta e se pensa fora da caixa em vez de se seguir o “rebanho” podemos potenciar o quanto pequenos somos. Deixemos as “pimentas nos XXXX dos outros” de lado e unamos esforços para influenciar a tomada de decisão.


Andamos nós a receber fundos para “queimar” vinhos e já os franceses recebem dinheiro para arrancar vinha. Em Portugal é inevitável essa tomada de decisão: a única diferença é que andamos sempre atrasados face aos outros países. Não aprendemos com que já fez o percurso.


Estamos sempre a espera para ver no que dá.


ESCRITO POR:


Pedro Fernandes

Pedro Fernandes enólogo





Pedro Fernandes é um Enólogo português que desde os 11 anos está ligado á Vitivinicultura, onde desde cedo começou a fazer os primeiros vinhos com o seu pai e a fazer trabalhos como a poda.

Desde lá nunca parou e em 2018 decide dedicar-se ao setor do vinho, começando por fazer "tudo ao contrário". Começou por tirar cursos de especialização de vinhos como o WSET (Direct Wine) e o Wine Expertise (ISAG) em 2018/2019. Depois forma-se na Universidade de Nebrijia em Madrid, tirando um MBA de Enologia (2020). Já em 2021, com 39 anos, decide tirar uma Licenciatura em Enologia (UTAD), e contrariando todas as probabilidades, termina o curso em 2024.

Pelo caminho cria a sua primeira marca pessoal de vinho - Chãos - e estagiou no prestigiado Chateau Latour (em Bordéus).

Atualmente exerce consultoria no setor do vinho, onde desempenha um papel não só de enólogo, mas também criando uma estratégia de negócio para os produtores de vinho, com uma visão atual do mercado, onde passa pelos recursos do Marketing Digital e Enoturismo.

Comentários


Consultoria de vinho

  wine business consulting

  • Instagram
  • Facebook
  • LinkedIn
Contatos:
EMAILinfo@consultoriadevinho.com

TELEMÓVEL: 935 157 358

            Registre-se no site
bottom of page