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As vindimas já começaram e agora?

  • pdsfernandes
  • 29 de set. de 2024
  • 7 min de leitura

Atualizado: 18 de jun.

Entender a realidade do excesso de vinho e da realidade económica para os viticultores e indústria do vinho

As vindimas já começaram e agora?

As vindimas já começaram um pouco por todo o mundo: França, Itália, Espanha e Portugal. O momento da vindima é uma época particularmente importante para o viticultor: representa o coroar de todo um ano de esforço e dedicação ao cultivo da uva.


Este ano não foi particularmente difícil. Choveu quando tinha de chover e fez sol quando tinha de fazer. Não houve muito míldio ou oídio e foi uma época particularmente favorável para plantações novas. Veio o calor nos últimos meses e agora fazia falta um pouco de chuva para potenciar a maturação da uva, permitir o crescimento do bago e permitir á videira captar água para as suas reservas futuras.

O difícil não foi o ano de cultivo e também não deve ser o período de vindima. Apesar da falta de mão-de-obra, com maior ou menor esforço, acabará por correr tudo dentro da normalidade.


O difícil vai ser alguns viticultores terem de tomar ou não a decisão de deixar uvas penduradas nas videiras.

Optar por levar tudo aos produtores/adegas sem preço ou com um preço ridiculamente baixo e que não justifique sequer o dia da vindima ou optar por deixar as uvas nas videiras, não tendo mais gastos e esperar que no ano que vem seja diferente. Mas é extremamente doloroso para o viticultor deixar as uvas nas videiras, mesmo sem saber se as vão pagar sequer.

Pelo Douro, fala-se em uvas que estão no sistema chamado “beneficio”, que serão pagas a 900 euros a pipa, contrariando o que antes ultrapassava os 1000 euros e as uvas fora do benefício a 300 euros. (Falo do Douro porque é a realidade que conheço melhor e serve de referência a outras regiões).


De acordo com os factos e o que tenho vindo a analisar há já alguns, com base em relatórios, empresas vocacionadas nas vendas de vinho e especialistas da área, prevejo que as dificuldades dos viticultores não são só para este ano. Prevejo estas dificuldades para os próximos 3 anos. A ser verdade, mais uma vez vamos a assistir a um abandono progressivamente maior das terras. Mais uma vez, os fantasmas de esforço e sacrifício que os nossos pais e avós passaram voltaram para nos assombrar e vão exigir o nosso espírito de resiliência para aguentar e esperar que as coisas mudem.


Os stocks de inventário presentes nos armazéns estão cheios e não só aqui em Portugal e as medidas adotadas há já muito em França de destilação de vinho e que só agora estão a ter algum impacto por cá, já migraram para o arranque de vinha. Mas estas medidas são de curto prazo. Percebo a lógica: lei da oferta e da procura. Se diminuir o vinho que tenho no mercado vai ser mais procurado porque há menos e provavelmente o preço vai aumentar.

Mas, lamento informar a alguns engenheiros teóricos e eventuais representantes do setor que essas medidas não resolvem o problema. Costumo chamar a isso teoria do tapete. A teoria do tapete consiste em empurrar o lixo para debaixo dele para que não seja visível a olho nu. O objetivo é mostrar a casa arrumada, mas que na realidade, o problema apenas diminui ou saiu do local onde se encontrava, mas não foi na realidade resolvido.

Enquanto não nos concentrarmos em ver realmente o problema, as medidas serão sempre de curto prazo e pouco concretas. E quais são os problemas?


. Novos Países:

Se os países do “velho mundo” retirarem os seus produtos do mercado, existem outros “emergentes” que colocarão os seus em substituição. E quando falo em países, falo em Inglaterra, Bulgária, Roménia, México, Uruguai ou até Suécia. Ou seja, são países que nunca ou quase nunca produziram vinho na sua história, mas devido às alterações climáticas atuais, passaram a favorecer a perenidade das videiras ou então a globalização pelo acesso à Internet (e-commerce e redes sociais), que permitiu criar estratégias de negócio mais favoráveis. Por pouco que estes países possam estar a vender, estão a retirar-nos uma fatia de vendas do mercado.


. Comerciais:

Passamos do vendedor de rua que ia de porta em porta à procura de angariar novos clientes, na sua grande maioria restaurantes, para apontadores de pedidos. Hoje substituíram o nome comercial por acount sales manager, mas na realidade apenas mudou o nome, mantendo-se as competências ou até diminuindo-as. Não interessa muito compreender o negócio do dono do restaurante, mas mais distribuir catálogos e diminuir cada vez mais as margens dos produtos ou alargar prazos de pagamentos, para assegurar que os produtos consigam entrar nesse restaurante. Essas técnicas são designadas de manipulação e que resultam e resultaram durante longos anos. Mas o mercado mudou.


. Restaurantes:

Os donos dos restaurantes já não têm paciência para ouvir um comercial novo que entra lá a dizer que tem produtos novos. Estão fartos que os façam perder tempo, com coisas que não querem a um preço que não querem. Tornou-se difícil agendar uma reunião com o proprietário, que acaba sempre por se desculpar que não tem tempo naquele dia. A verdade é que grande parte dos comerciais não está preparado para ouvir um “não” numa sociedade cada vez mais imediatista.

Mas os restaurantes também têm culpa no cartório. Existem vários que não pagam aos fornecedores os vinhos que compram. Não têm a noção de que estão a contribuir para que a indústria cada vez mais se desvalorize e das dificuldades que um viticultor atravessa com as suas uvas e vinhos.

A esmagadora maioria dos empresários de restauração gere o restaurante como uma profissão e não como um negócio. Ou é uma empresa familiar que já veio dos pais ou então é alguém que trabalhou em restauração e que decidiu estabelecer-se por conta proporá. Conclusão: sabe o que fazer na área operacional, mas não tem noção de aspetos fundamentais empresariais como a contabilidade e gestão. Depara-se com o problema de falta de mão de obra e não sabe como o resolver. Esquece-se que o mercado mudou.


. Produtores:

O produtor depara-se com um problema: cada vez tem mais vinho dentro do armazém e para solucionar o mesmo, cada vez mais cria gamas novas de vinho. Saiu-se de um branco e um tinto, para 10 brancos, 10 tintos, um espumante, um rose, uma colheita tardia e por aí vai. Facilmente hoje um produtor tem 10 referencias de vinho. O fator diversificação é uma das formas de marketing mix, mas diversificar não é acrescentar produtos iguais a tantos outros que já existem no mercado. Diversificar é acrescentar valor e inovação. Para o consumidor geral, o vinho á apenas vinho. O melhor é o que lhe sabe bem. Ele não quer saber se tem bâtonage ou se a madeira utilizada no envelhecimento é húngara ou francesa.

Pegando em exemplos, Portugal nunca foi conhecido pelos vinhos monocasta, até porque as nossas castas nacionais são desconhecidas lá fora e difíceis de pronunciar. De repente há um ou outro produtor que decide criar um monocasta touriga nacional e os outros vão todos atrás criando vinhos touriga nacional. Há bem pouco tempo existiam meia dúzia de vinhos brancos em curtimenta, depois os outros foram atrás e hoje existem centenas de opções.

No fundo a diversificação é inventar categorias novas, algumas das quais sempre existiram e a seguir os outros todos e copiar. E isso tem um culpado…a distribuição. As distribuidoras pressionam os produtores a criar um vinho monocasta porque agora é o que esta a dar, é o que está na moda para os consumidores. A questão que devemos levantar é: que consumidores? Os consumidores da Sogrape, Borges e outras ou os nossos consumidores? Sabem os produtores quem são realmente os seus consumidores?


Será que o mercado não mudou?

Mudou e a tendência é de mudar a cada dia que passa. Cada vez mais a sociedade prefere outras bebidas alcoólicas ou bebidas gaseificadas. As novas gerações optam por cerveja ou bebidas brancas no contexto de festa e no contexto social optam por água ou sumos e sumos cada vez com menos gás, menos corantes, menos açucares.


A sociedade hoje esta mais consciente da alimentação, mais virada para o vegan, natural, biodinâmico. Tem mais responsabilidades ambientais e sociais. Os vinhos consumidos são cada vez mais com menor teor alcoólico, com menos estrutura, menos tânicos, mais frescos e com algum teor de açúcar. O mercado mudou, mas o setor não ou tende a mudar lentamente.

O setor não se adaptou as mudanças no próprio processo de compra. Hoje quase todas as indústrias têm obrigatoriamente de ter uma estratégia digital, baseada no e-commerce e redes sociais, porque as pessoas (relembro) querem imediatismo: tudo mais rápido, mais simples e fácil de obter. E, como sabemos, a indústria tende a não se adaptar ao mercado digital. Existem vários produtores que recusam colocar os seus vinhos em site e ter uma estratégia digital, porque “não dá dinheiro”. O problema é que quem não aderir a uma estratégia digital ficará para trás, está a perder mercado, experiência, notoriedade, autenticidade e influência.


O mercado mudou, mas a indústria não.


ESCRITO POR:


Pedro Fernandes

Pedro Fernandes enólogo





Pedro Fernandes é um Enólogo português que desde os 11 anos está ligado á Vitivinicultura, onde desde cedo começou a fazer os primeiros vinhos com o seu pai e a fazer trabalhos como a poda.

Desde lá nunca parou e em 2018 decide dedicar-se ao setor do vinho, começando por fazer "tudo ao contrário". Começou por tirar cursos de especialização de vinhos como o WSET (Direct Wine) e o Wine Expertise (ISAG) em 2018/2019. Depois forma-se na Universidade de Nebrijia em Madrid, tirando um MBA de Enologia (2020). Já em 2021, com 39 anos, decide tirar uma Licenciatura em Enologia (UTAD), e contrariando todas as probabilidades, termina o curso em 2024.

Pelo caminho cria a sua primeira marca pessoal de vinho - Chãos - e estagiou no prestigiado Chateau Latour (em Bordéus).

Atualmente exerce consultoria no setor do vinho, onde desempenha um papel não só de enólogo, mas também criando uma estratégia de negócio para os produtores de vinho, com uma visão atual do mercado, onde passa pelos recursos do Marketing Digital e Enoturismo.

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