As vindimas já terminaram e agora?
- pdsfernandes
- 12 de out. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 18 de jun.
Entender a realidade do excesso de vinho e da realidade económica para os viticultores e indústria do vinho

Em resposta ao post “as vindimas já começaram e agora?”, decidi criar uma nova publicação que fará uma espécie de resumo ao que aconteceu durante a vindima em 2024, salientando os principais problemas que aí veem e eventuais soluções.
Direto ao ponto, vou pegar, mais uma vez no exemplo do Douro, por ser a região que melhor conheço e por ser a região em que mais problemas no escoamento das uvas se registaram pelo que fui vendo e lendo. Mas desengane-se que o que se tem passado no Douro não se venha a passar em outras regiões (é tudo uma questão de tempo).
No Douro existe um sistema designado “beneficio” que basicamente diz quais as uvas admissíveis à Vinificação de Vinho do Porto. Estas uvas são pagas a mais do dobro do que as restantes que não estão dentro deste sistema. E, a esmagadora maioria dos viticultores, apenas tem entre 5 a 10% das uvas dentro deste sistema.
Nos últimos anos, os principais produtores durienses que compram as uvas não excluíam deste lote as uvas brancas, o que na prática, alargava a quantidade de uvas admissíveis ao benefício, logo trazia mais lucro aos viticultores.
Ora, neste ano, além de terem excluído essas uvas, houve vários casos que nem as uvas dentro do sistema de benefício aceitaram.
Como a as adegas cooperativas também têm grandes volumes de vinho por vender e nos seus estatutos devem receber toda a colheita dos seus associados, estas adegas rejeitaram comprar os excedentes dos não associados.
Já desde o início do ano, era previsível que houvesse grandes quantidades de uvas sem comprador na altura das vindimas. Perante este cenário os produtores de uva tinham as seguintes opções:
. ou arranjavam outros produtores que quisessem comprar uva (o que não é fácil face à oferta e aos preços baixos que pagavam pelas mesmas)
. Ou vinificavam parte ou total da produção, aos poucos, á medida que os lagares estavam disponíveis.
. ou optavam por deixar as uvas nas videiras.
Casos houve de pessoas que conseguiram conjugar essas três opções. E, houve casos de alguns produtores, que decidiram receber mais 20% de uvas extra beneficio.
Isto tudo significa que, em alguns casos, a 60% da colheita não foi vindimada ou o viticultor acabou por fazer vinho. Ou seja, trabalhou o ano todo para “aquecer”. A boa notícia é que se o viticultor tem um espirito de treino, não teve de pagar “ginásio” para treinar os músculos. A má noticia, é que “trabalhar para aquecer” não paga as contas e, como tal, advêm-se momentos difíceis nos próximos tempos.
E tempos difíceis, no meu humilde ponto de vista não é o próximo ano. Tempos difíceis, nas minhas previsões, são os próximos 3/5 anos, dependendo da evolução das coisas.
Senão vejamos, os viticultores, ao passarem a produzir vinho nas suas casas, dificilmente o vão consumir ou escoar todo no próximo ano, o que significa que foi uma solução de recurso e eu diria mais…de “desespero”.
Face a isto, vamos assistir ao aumento da oferta nos vinhos a granel no mercado, atirando os vinhos para preços a 1/1.5€ a garrafa e 3/4€ o garrafão, se não baixar ainda mais que isso…
Com esta decisão vai acabar por retirar sempre algum mercado aos produtores de vinho, por pouco que seja, o que significa que vai haver mais quebras de venda, logo menos compras de uva.
Englobando tudo isto, apresento abaixo um quadro sobre quais são as soluções que encontro, medidas possíveis e uma opinião sobre as mesmas.
Mas para já, pensar em soluções imediatas que estão a ser tomadas:
O governo decidiu atribuir um crédito sem juros, com elevados benefícios para adegas cooperativas e produtores, desde que estes provassem que tinham pago parte da colheita aos viticultores. Não pondo em causa medidas politicas, novamente são soluções de recurso de curto prazo que não solucionam o caso, mas apenas o arrastam no tempo. Há várias coisas de que nos esquecemos pelo caminho:
. que a taxa de inflação aumenta e com isso as pessoas ano após ano, perdem poder de compra;
. que a população está cada vez mais envelhecida, o que por si só leva a um maior abandono das praticas culturais realizadas e abandono total de “granjeio”.
. com isso, perdemos qualidade nas uvas, logo qualidade nos vinhos, logo preços mais baixos de venda ao mercado.
A corda um dia vai partir. É este “sacudir da água do capote”, de medidas de curto prazo e não de medidas estruturais, do “vamos andando e logo se vê” que, na minha opinião, vão conduzir o Douro á miséria.
Prevejo uma queda brutal no granjeio dos terrenos, ao abandono das populações que alguns (os mais novos) vão emigrar, sendo substituídos por pessoas oriundas de países sem tradição vitivinícola. Vamos assistir, á medida que viajamos pelas estradas, a “montes” com pinheiros, giestas e silvas em vez dos socalcos do Douro.
No fundo, o que vai acontecer é que tudo vai voltar ao que sempre foi. O Douro já passou por isto mais vezes. Desde o tempo em que a Dona Antónia decidiu comprar as propriedades aos pequenos viticultores e devolveu-as de novo, para evitar que fossem parar às mãos de famílias inglesas que se instalavam por essa altura no Douro. A grande diferença é que desta vez, não me parece que exista alguém com essa atitude.
Só sobreviverá quem conseguir “aguentar” as novas crises que estão para vir. Estamos a viver um período conturbado no sector: tivemos epidemia, temos guerras a decorrer, temos alterações climáticas que desfavorecem a prática da viticultura, temos diminuição de consumo de vinho a nível mundial, temos o aparecimento de novos países produtores de vinho, temos campanhas anti-alcool, temos falta de mão-de-obra, falta de união entre as pessoas, temos doenças novas a aparecer nas videiras. Ou seja, temos o pacote completo.
Urge união entre os viticultores e não uma união que seja do interesse de outros que apregoam para que se siga numa direção, prometendo que á a solução divina. Nos momentos de crise há sempre alguém que sai a ganhar.
É inevitável que vá haver crise e quando digo isto, ainda há alguns que dizem que o governo vai tomar medidas para resolver o problema. As soluções que aí virão resolverão apenas os sintomas, não a doença.
Pegando numa coisa chamada PNL (Programação Neurolinguística) e trazendo-a para o vinho, “antes de melhorar vai ter de piorar” e “é nos momentos de dor que se cresce”. O Douro sempre teve períodos de crise e sempre soube dar a volta por cima.
Solução | Pelo menos… | Consequência | Fará sentido? |
Arranco vinha | Não perco dinheiro | Vinhas centenárias que vão á vida | França já o está a fazer |
Trato apenas da vinha com benefício e pouco mais | Não perco dinheiro | Abandono | E de maneira! |
Arranco vinha e ponho outra cultura | Tenho a terra granjeada | Como somos cordeiros, vão todos atrás fazer o mesmo | Se puser oliveiras, lá vai baixar o preço do azeite! |
Reduzo a aplicação de sulfates e herbicidas | Poupo dinheiro | As vinhas ficam cheias de infestantes e doenças | É um mal menor |
Faço vinho | Não as vejo nas videiras | Vai haver mais oferta no mercado, logo preços de venda mais baixos | Não tenho capacidade competitiva. Não dá para o trabalho |
Esperar para ver | Esperar para ver | Esperar para ver | Esperar para ver |
ESCRITO POR:
Pedro Fernandes

Pedro Fernandes é um Enólogo português que desde os 11 anos está ligado á Vitivinicultura, onde desde cedo começou a fazer os primeiros vinhos com o seu pai e a fazer trabalhos como a poda.
Desde lá nunca parou e em 2018 decide dedicar-se ao setor do vinho, começando por fazer "tudo ao contrário". Começou por tirar cursos de especialização de vinhos como o WSET (Direct Wine) e o Wine Expertise (ISAG) em 2018/2019. Depois forma-se na Universidade de Nebrijia em Madrid, tirando um MBA de Enologia (2020). Já em 2021, com 39 anos, decide tirar uma Licenciatura em Enologia (UTAD), e contrariando todas as probabilidades, termina o curso em 2024.
Pelo caminho cria a sua primeira marca pessoal de vinho - Chãos - e estagiou no prestigiado Chateau Latour (em Bordéus).
Atualmente exerce consultoria no setor do vinho, onde desempenha um papel não só de enólogo, mas também criando uma estratégia de negócio para os produtores de vinho, com uma visão atual do mercado, onde passa pelos recursos do Marketing Digital e Enoturismo.





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