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E se o Douro fosse em França?

  • pdsfernandes
  • 29 de set. de 2024
  • 5 min de leitura

Atualizado: 18 de jun.


E se o Douro fosse em França?

Bordéus e Borgonha são indiscutivelmente as duas regiões vitivinícolas mais prestigiadas do mundo. Conhecidas pela excelência dos seus vinhos, estas regiões francesas gozam de uma reputação global que lhes permite dominar o mercado e ditar tendências. Imaginando que o Vale do Douro, estivesse localizado em solo francês, poderia o Douro ser uma terceira região de topo, ao lado de Bordéus e Borgonha?


Para começar, o Douro é a região demarcada mais antiga do mundo. Situado no norte de Portugal, é também Património Mundial da UNESCO, um reconhecimento de importância cultural e paisagística. As suas encostas são íngremes, os solos são xistosos e tem microclima único, o que permite criar condições ideais para o cultivo de vinhas e produção de vinhos de alta qualidade em diferentes estilos, tendo em conta que possui três sub-regiões com caraterísticas distintas. Além disso, o Douro possui uma diversidade impressionante de castas autóctones, como a Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Franca e Tinta Barroca, no caso das tintas, as quais são a base da elaboração de um vinho também ele único em todo o mundo - o Vinho do Porto.


Cultura Vitivinícola e Política: França vs. Portugal

A cultura vitivinícola francesa é marcada por um profundo respeito pela tradição, uma regulamentação rigorosa e um marketing sofisticado. As denominações de origem controlada (AOC) francesas asseguram padrões de qualidade elevados e ajudam a manter a reputação das regiões. Além disso, a França investe significativamente na promoção dos seus vinhos a nível internacional, o que se reflete na forte presença dos vinhos franceses nos mercados globais.

Em contraste, Portugal, apesar da sua longa tradição vitivinícola e da qualidade indiscutível dos seus vinhos, enfrenta desafios na promoção e valorização internacional das suas regiões. A falta de um investimento significativo em marketing contribui para uma menor visibilidade dos vinhos portugueses no cenário internacional.


Mentalidade e Cultura: Portugal vs. França

Para além das questões estruturais e económicas, a mentalidade e a cultura das pessoas desempenham um papel crucial na forma como uma região vitivinícola é percebida e valorizada. Em Portugal, muitas vezes enfrentamos uma tendência cultural de autocrítica e falta de apoio mútuo. Em vez de nos unirmos para promover e valorizar as nossas riquezas nacionais, existe uma propensão para destacar defeitos e limitações, criando um ambiente que pode ser percebido como desleal e avesso à mudança. Não é á toa que a última palavra do livro “Os Lusíadas” escrito por Luís de Camões é “inveja”.


Quando estagiei em França, num dos melhores châteaux do mundo, tínhamos alturas do dia em que fazíamos uma pausa: uma espécie de picnic na vinha ou no interior da adega. Saboreávamos os tais “queijos franceses” (e sim, os franceses são completamente loucos por queijo) e enchidos variados juntamente com um vinho todos os dias diferente. Um dos dias provámos um vinho de um “concorrente” do Châteaux Pichon Baron, e todos, mas mesmo todos sem exceção, falaram bem do vinho. Se fosse em Portugal, iriam logo colocar defeitos ou desvalorizar o vinho face ao produto próprio.


Ainda a propósito de estágios de vinificação, é interessante pensar que em Portugal existe falta de mão de obra nessa altura e que colegas meus enviaram emails a solicitar estágios em empresas portuguesas e que um, dois, três anos depois nem uma resposta receberam. Por outro lado, qualquer que seja o email de envio a um produtor francês, asseguro que receberá uma resposta, ainda que negativa. O “não” é uma resposta válida que nos ajuda a lidar com ela e acima de tudo mostra respeito pela pessoa a montante. Dizem as regras do marketing que a comunicação é um aspeto importante na promoção de uma marca. Dar resposta a um email é também uma forma de comunicação.


Somos um povo marcadamente invejoso, avesso ao medo e mudança, de mentalidade fechada, com ideias “indiscutíveis” (do tipo “eu é que sei” e “sempre se fez assim”)…

O mais curioso, é que, historicamente, durante a era dos Descobrimentos, os portugueses eram conhecidos pela sua coragem, inovação e espírito de aventura. Eram pioneiros, prontos para explorar novos mundos e abraçar mudanças radicais. No entanto, com o passar dos séculos, essa mentalidade progressista parece ter diminuído, dando lugar a um certo conservadorismo e receio de mudança.


Essa mentalidade fechada e aversão ao risco podem ser vistas como um entrave ao desenvolvimento e valorização de regiões como o Douro. Em contraste, na França, a tradição de valorizar e promover os seus produtos regionais é fortemente enraizada na cultura. Os franceses orgulham-se de sua herança vitivinícola, são altamente nacionalistas (defendem a sua língua, pátria e bandeira) e trabalham coletivamente para assegurar que os vinhos franceses recebam o reconhecimento que merecem e, não apenas, os vinhos da sua propriedade.


Douro na França: Uma Revolução na Percepção

Se o Douro estivesse localizado na França, é provável que fosse considerado uma das principais regiões do mundo, ao lado de Bordéus e Borgonha. A combinação do potencial intrínseco do Douro com a estrutura regulatória, o poder de marketing da França e uma mentalidade mais aberta, poderiam catapultar esta região para o topo do mundo vitivinícola.

O Douro poderia então gozar da mesma atenção e respeito que Bordéus e Borgonha recebem, atraindo investidores, enólogos renomeados e entusiastas do vinho de todo o mundo. Os vinhos do Douro seriam destacados em leilões internacionais, listados nos menus dos melhores restaurantes e disputados por colecionadores.


Infelizmente, por estar em Portugal, o Douro ainda não recebe o reconhecimento que merece. Apesar do seu potencial evidente, a região luta para se destacar em um mercado global dominado por vinhos franceses, italianos e espanhóis. Esta situação não é apenas uma questão de qualidade, mas de perceção e valorização internacional. A falta de investimento em promoção e uma estratégia de marketing robusta são barreiras que impedem o Douro de alcançar a notoriedade que Bordeaux e Borgonha desfrutam.


O trabalho que tem sido feito é fundamentalmente de “formiga”, ou seja, lento e penoso. Mas se tomarmos o exemplo da formiga, verificamos que as formigas trabalham em comunidade. Capturam o alimento para o formigueiro e não apenas para si próprias, nunca desistem apesar das circunstâncias e nunca se queixam das condições atmosféricas. Talvez se pensássemos e agíssemos mais como uma formiga conseguíssemos, crescer e destacar os nossos vinhos no panorama internacional.


ESCRITO POR:


Pedro Fernandes

Pedro Fernandes enólogo





Pedro Fernandes é um Enólogo português que desde os 11 anos está ligado á Vitivinicultura, onde desde cedo começou a fazer os primeiros vinhos com o seu pai e a fazer trabalhos como a poda.

Desde lá nunca parou e em 2018 decide dedicar-se ao setor do vinho, começando por fazer "tudo ao contrário". Começou por tirar cursos de especialização de vinhos como o WSET (Direct Wine) e o Wine Expertise (ISAG) em 2018/2019. Depois forma-se na Universidade de Nebrijia em Madrid, tirando um MBA de Enologia (2020). Já em 2021, com 39 anos, decide tirar uma Licenciatura em Enologia (UTAD), e contrariando todas as probabilidades, termina o curso em 2024.

Pelo caminho cria a sua primeira marca pessoal de vinho - Chãos - e estagiou no prestigiado Chateau Latour (em Bordéus).

Atualmente exerce consultoria no setor do vinho, onde desempenha um papel não só de enólogo, mas também criando uma estratégia de negócio para os produtores de vinho, com uma visão atual do mercado, onde passa pelos recursos do Marketing Digital e Enoturismo.

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