Existem 3 problemas no Setor do vinho e Portugal tem mais um…
- pdsfernandes
- 9 de mar.
- 8 min de leitura
Atualizado: 27 de mar.

1º Problema: Alterações nos padrões de consumo
Cada vez mais as atuais e novas gerações consumidoras de vinho preferem vinhos com menos corpo, mais frutados, mais frescos, menos amadeirados, menos alcoólicos e menos corpulentos. Isso trás para o mercado vinhos cada vez menos complexos, mais homogéneos e menos distintos. Com estas mudanças, os vinhos são cada vez mais parecidos e cada vez mais o fator Terroir tem cada vez menos importância. Neste contexto, os vinhos brancos, rosados e espumantes começam a ter lugar nas preferências dos consumidores e, no caso dos vinhos tintos, assiste-se a novas categorias de vinhos como os Palhetes, para dar resposta a essas mudanças. Os vinhos tintos, ao estilo Beaujolais ganham evidência no mercado.
Novas tendências de consumo de vinho:
Tipo de vinho | Tendências |
Brancos | + fresco + frutado - álcool + floral + acidez Sem madeira |
Tintos | + frutado - álcool - madeira - adstringência - corpo Com algum açúcar residual |
Rosados | + frutado + ácido Com algum açúcar residual |
Espumantes | + frescos + frutados - álcool |
Fortificados | - álcool - açúcar |
2º Problema: Alterações climáticas:
Este segundo problema que a Consultoria de vinho identifica tem influência direta nas alterações dos padrões de consumo, uma vez que é contranatura ao que os consumidores procuram.
As alterações climáticas têm impacto desde logo na produção em viticultura, uma vez que aumenta os custos de produção e obriga a constantes adaptações do viticultor face às operações culturais a efetuar na videira e na sua implementação. Para isso deve planear qual o tipo de casta que melhor se adequa face às alterações climáticas, no que diz respeito á localização das vinhas, equilibrando a altitude, estrutura do solo, exposição solar e caraterísticas biológicas da casta para que a mesma possa produzir um determinado perfil de vinho e, em alguns casos, não ponha em causa a sua própria sobrevivência. Deste modo, regiões como Bordéus, atualmente estão a avaliar/testar castas de outros países, entre elas a nossa Touriga Nacional e o Alvarinho, para corresponderem às alterações do clima e garantir a qualidade dos vinhos. Outras regiões francesas estão igualmente a testar castas designadas de híbridos, geneticamente modificadas.
O viticultor, hoje, tem de ter mais conhecimento cientifico e auxiliar-se da tecnologia para prever as tais alterações e conseguir atuar face às mesmas. De igual modo, as alterações climáticas não são só o aumento do calor e de menores densidades de chuva que caem por ano, mas também são o aumento de eventos extremos que fazem com que o viticultor tenha de tomar medidas imediatas. A exemplo disso, encontra-se o granizo (cada vez mais presente) e as geadas, muito comuns na Borgonha e Champagne. Neste último caso, assiste-se a fogueiras que são acendidas no meio das vinhas para derreter o gelo e há até tecnologias como a implementação de leds no interior da canópia da videira que se ligam automaticamente através de uma sonda mediante a humidade.
O problema é que isto tudo trás custos maiores de manutenção, muitas vezes tem de haver reconversões de vinhas. No caso de implantação de vinhas com enxerto pronto, resistem menos às temperaturas cada vez mais altas e em épocas indesejáveis do ano, o que provoca que as videiras tenham menos reservas no seu interior, por causa dos intervalos de descanso serem cada vez menores, acabando por esgotar a videira e acabando por morrer. Além disso, com o aumento das temperaturas, existe um crescimento de pragas nas vinhas e de doenças designadas “do lenho” como a esca ou eutipiose.
Por outro lado, no campo da enologia, estas alterações provocam cada vez mais vinhos menos ácidos, com mais álcool, mais corpo, menos florais, ou seja, precisamente o contrário do que o consumidor procura, trazendo dificuldades na elaboração dos vinhos, que mesmo em aspetos mais técnicos, cada vez mais se verificam problemas na fermentação dos brancos cujo teor de açúcar dificulta a fermentação alcoólica e, no caso dos tintos, imensas dificuldades no arranque da fermentação malolática, uma vez que as uvas tintas têm na sua composição, cada vez menos ácido málico necessário para ser degradado.


3º Problema: Falta de mão-de-obra:
O terceiro grande problema é sem duvida a falta de mão de obra. Cada vez há menos gente interessada em trabalhar no setor vitivinícola. As novas gerações preferem cada vez mais trabalhos mais leves, menos expostos ao clima e menos apego á terra. Quando estive a estagiar no Château Latour, 80% dos trabalhadores, em contexto de vindima, eram oriundos de países como a Colômbia. Prova dos tempos, um dia alguém disse “Homens fortes criam tempos fáceis e tempos fáceis geram homens fracos, mas homens fracos criam tempos difíceis e tempos difíceis geram homens fortes”.
E, na verdade, assiste-se cada vez mais mulheres presentes em ofícios que dantes eram feitos por homens, como a simples condução de tratores agrícolas. As mulheres, cada vez mais, na tentativa de mostrarem á sociedade em geral e a si próprias, aceitam trabalhar em viticultura e não apenas em contexto vindima, mas também com uma roçadora ás costas. Se antigamente, grande parte do trabalho agrícola era executado por homens, hoje vêm-se cada vez mais mulheres na viticultura, não sei se por mudança dos tempos, se pelo fato de estarem mais próximas da natureza, mas é um fato.
Mas guerras á parte sobre qual o sexo mais presente no campo, a realidade é que cada vez mais existe pouca mão de obra para cultivar as vinhas. E, a pouca que existe, não tem perfil cultural para a atividade e é cara. A indústria tem procurado arranjar soluções tecnológicas como a aplicação de robôs, Dornes, sensores e por aí vai, mas a atividade vitivinícola e, em particular no Douro, torna-se difícil a utilização de certas tecnologias que continuam a ser dispendiosas e pouco produtivas. É necessária mão de obra e na vinha ou adega é preciso trabalhar e arregaçar as mangas.
Mesmo as grandes empresas produtoras de vinho recorrem cada vez mais a recorrem a serviços de equipas por falta de mão-de-obra nos seus quadros.
Atividades como a escava deixaram de ser feitas porque ninguém quer fazer trabalho “pesado”. Devido a isso, as videiras são menos enterradas o que faz com que a profundidade das raízes seja cada vez menor, tornando as videiras menos resistentes.
Nunca antes foi tão fácil trabalhar em viticultura e nunca antes houve tanta falta de mão-de-obra que tende a diminuir cada vez mais. Os sacos de adubo passaram de 50 quilos para 25 quilos e já são pesados!!! As uvas passaram de ser acartadas em cestos pelo meio de vinhas ingremes para serem transportados por caixas de 15 quilos que são pousadas na caixa de um trator. As regas são efetuadas em sistemas gota-a-gota. As podas são mecânicas e a aplicação de fitofármacos e fertilizantes são efetuadas por alfaias agrícolas, em vez de atomizadores pesados em cobre. Mas, na verdade, não há quem queira trabalhar no setor.
4º Problema (o nosso): a mentalidade:
Se existem problemas comuns a todos os países produtores, existe um problema característico de Portugal que é a nossa mentalidade. E esse problema prejudica a nossa imagem no setor do vinho a nível internacional, a nossa capacidade produtiva e económica e a estagnação e declínio do setor.
Primeiro de tudo, referir que nós não eramos assim. O povo português, na sua génese, era um povo guerreiro, sem medo do desconhecido e do impossível, que se ajudava mutuamente e nunca desistia. Hoje, somos um povo invejoso, individualista, resistente á mudança ou com mentalidade fechada e sem visão sobre o futuro. O estranho é que tecnicamente somos dos melhores trabalhadores a nível mundial quando nos encontramos em países desenvolvidos, mas quando nos encontramos na nossa pátria, puxamos literalmente o país para baixo. Lá por fora, quando avaria uma maquina na Alemanha ou França, o português vai arranjar uma maneira de pôr um arame e a máquina funcionar. Mas falta-nos processos e estrutura para fazer com que as máquinas funcionem ao ritmo constante e evolutivo.
Depois temos a mesquinhez de “falar mal” do nosso vizinho, de colocar defeitos em tudo e de arranjar artimanhas. Não nos ajudamos mutuamente e procuramos os resultados fáceis e imediatos. Não pensamos a longo prazo, não temos literacia financeira e perdemos facilmente o foco e concentração. Agimos de forma reativa, estamos sempre a lamentar-nos e condenamos os bem-sucedidos.
Não é que sejamos todos iguais, mas uma grande parte da população o é. Com isto estagnamos a nossa evolução e como o próprio setor vitivinícola, que já é fechado por si só, ainda o fechamos mais.
Com isto prejudicamos a nossa imagem internacional. Associam-nos aos vinhos baratos e com castas difíceis de pronunciar. Falta-nos visão, coesão e meritocracia.
O Douro foi feito por homens de luta, de garra e de dinâmica. Mas sempre foi mal explorado desde o inicio. O vinho do Porto, para ter sucesso, teve de ser explorado pelos britânicos, holandeses e até franceses. É talvez o único tipo de vinho cujo nome do lugar nem sequer é característico da região no qual é produzido. Na cidade do Porto quase não se produz vinho…
Não sabemos comunicar e isso começa dentro de portas.
É preciso que os produtores se unam em torno de um objetivo comum, dar a conhecer a qualidade que, de fato existe, dos vinhos portugueses. Os donos de restaurantes têm à sua disposição formações especificas sobre o setor, muitas vezes gratuitas, e não usufruem delas simplesmente porque acreditam que não precisam. Na verdade, grande parte dos proprietários da restauração, nasceram empresários desse ramo, porque dantes trabalhavam em restaurante. Pouco sabem sobre temas como gestão, liderança, comunicação e vendas. Aprenderam a “partir pedra” e não evoluíram no tempo. Coisas simples por vezes são suficientes para produzir resultados, mas serão…resultados simples. É preciso saber mais, aprender como fazem os melhores e conhecer o mercado do vinho.
Vender vinho não é o mesmo que vender coca cola. Há determinados locais onde guardar o vinho, deve ser serviço de uma forma especifica de acordo com o tipo de vinho, perceber a heterogeneidade dos solos, regiões e castas e até conhecer a história. Comunicar vinho deve ser com “brilho nos olhos”. A coca cola é colocar dentro de um copo com gelo e está feito. O grande problema, é que com as alterações na inflação, a lata da coca cola é hoje mais barata que alguns vinhos.
O setor está a viver tempos difíceis, mas a culpa é de todos os players do mercado, desde empresários do setor da restauração, passando pelos vendedores que agora já se chamam gestores comerciais e ainda Key account manager, enólogos que preferem ser chamados de winemakers, produtores de vinho, marketing managers, etc. Os nomes “pomposos” mudaram, mas os fundamentos do seu trabalho não deviam mudar. Na verdade, os players não fazem o que realmente tem de ser feito. Não se adaptam á mudança…fazem assim porque “sempre se fez assim”.
ESCRITO POR:
Pedro Fernandes

Pedro Fernandes é um Enólogo português que desde os 11 anos está ligado á Vitivinicultura, onde desde cedo começou a fazer os primeiros vinhos com o seu pai e a fazer trabalhos como a poda.
Desde lá nunca parou e em 2018 decide dedicar-se ao setor do vinho, começando por fazer "tudo ao contrário". Começou por tirar cursos de especialização de vinhos como o WSET (Direct Wine) e o Wine Expertise (ISAG) em 2018/2019. Depois forma-se na Universidade de Nebrijia em Madrid, tirando um MBA de Enologia (2020). Já em 2021, com 39 anos, decide tirar uma Licenciatura em Enologia (UTAD), e contrariando todas as probabilidades, termina o curso em 2024.
Pelo caminho cria a sua primeira marca pessoal de vinho - Chãos - e estagiou no prestigiado Chateau Latour (em Bordéus).
Atualmente exerce consultoria no setor do vinho, onde desempenha um papel não só de enólogo, mas também criando uma estratégia de negócio para os produtores de vinho, com uma visão atual do mercado, onde passa pelos recursos do Marketing Digital e Enoturismo.






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