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Legislativas 2025: Onde está a Viticultura no debate político?

  • pdsfernandes
  • 9 de mai.
  • 4 min de leitura

problemas no Setor do vinho e Portugal


Enquanto os debates para as eleições legislativas de 2025 fervilham nos ecrãs e nas redes sociais, com propostas para tudo — saúde, habitação, impostos, excesso de imigração — há um tema que, mais uma vez, parece varrido para debaixo do tapete: a Agricultura. E dentro dela, o setor que talvez melhor represente a identidade, a paisagem e a economia rural portuguesa — a Viticultura — que continua silenciosamente ignorado.

 

E no meio de tudo isto… os números:


A viticultura representa cerca de 0,5% do PIB português de forma direta (produção de uva, vinho e transformação associada). Pode parecer pouco, mas a história muda quando olhamos o impacto total.

Com a cadeia alargada — logística, exportações, garrafeiras, restauração e sobretudo enoturismo — esse peso sobe para mais de 2,5% do PIB nacional. Um valor equivalente ao setor automóvel ou farmacêutico.

E estamos a falar de uma atividade que está distribuída por todo o território, que gera emprego no interior, que valoriza a paisagem, que atrai investimento e turismo de qualidade.

 

E os imigrantes?


Curiosamente, o tema mais discutido nas legislativas — com destaque nos discursos inflamados de quase todos os quadrantes — é a imigração. Fala-se de quotas, integração, segurança, regularização. Mas ninguém liga isso ao mundo rural, onde esses mesmos imigrantes são, hoje, a base da força de trabalho.

Segundo dados do setor, mais de 70% da mão de obra empregada nas vindimas em regiões como o Douro é de origem imigrante. Mas que trabalhadores são estes? São trabalhadores do Nepal, Bangladesh, Índia, Guiné-Bissau, Paquistão, entre outros — que chegam sem qualquer tradição ou cultura vitícola, e aprendem “a frio”, no terreno, com quem ainda por cá ficou.

Mas sem eles, a vindima colapsaria. E com o envelhecimento da população rural, o cenário torna-se ainda mais crítico.

No entanto, ao contrário de outros países vitivinícolas com políticas ativas de formação e valorização da mão de obra agrícola migrante, em Portugal o setor continua sem apoio consistente.

 

 O caso paradigmático do Douro:


Vejamos o Douro. Região histórica, património da UNESCO, sinónimo de esforço humano em socalcos, que resiste há séculos entre geadas, secas e crises de mercado. Em 2024/2025, esta região enfrenta problemas que deviam estar no topo das prioridades políticas — mas que continuam sem voz nos grandes palcos.


  • Preços da uva e do vinho a níveis insustentáveis.

    Em muitas zonas do Baixo e Cima Corgo, os viticultores vendem a uva abaixo do custo de produção. Segundo dados de viticultores e associações (ex: ProDouro), os preços médios pagos por uva para Vinho do Porto e DOC Douro têm estado muito baixos:


. Preço médio por kg (uva tinta geral): 0,30 a 0,45 €/kg

. Para uvas de qualidade superior (A/B): 0,50–0,70 €/kg, mas representa minoria.

...Isto quando conseguem vender…há já vários casos de produtores que foram notificados por empresas em que não vão ficar com as uvas…


  • Fragmentação extrema da propriedade.

    Pequenos viticultores, com parcelas de meia encosta, sem escala, sem poder negocial. Quase ninguém fala disto nas campanhas.


  • Abandono da terra e desertificação humana.

    Com filhos e netos a sair para o litoral ou para o estrangeiro, quem fica a cuidar da vinha? Idosos com 70 anos? Onde está o plano para sucessão geracional na viticultura?


  • Importação de vinho e aguardente vínica de Espanha.

    Em plena Região Demarcada do Douro, importam-se anualmente milhares de litros de vinho a granel e aguardente espanhola — para fortificar Vinho do Porto ou complementar stocks. Isto enquanto as uvas durienses são pagas a cêntimos, e muitos pequenos produtores não conseguem escoar produção. Um paradoxo gritante: importa-se o que a própria região não consegue valorizar.

 

O Silêncio que incomoda:


Não há um único tema de fundo agrícola nas agendas dos grandes partidos. Fala-se do interior como paisagem, como postal turístico. Mas e os agentes vivos dessa paisagem? Os viticultores, os enólogos, os técnicos, os pequenos empresários rurais? Estes continuam fora do radar.

A viticultura portuguesa precisa de política pública estruturada, com visão de longo prazo. O setor não quer subsídios eternos — quer investimento, formação, promoção externa, investigação e acima de tudo respeito.

ESCRITO POR:


Pedro Fernandes

Pedro Fernandes enólogo





Pedro Fernandes é um Enólogo português que desde os 11 anos está ligado á Vitivinicultura, onde desde cedo começou a fazer os primeiros vinhos com o seu pai e a fazer trabalhos como a poda.

Desde lá nunca parou e em 2018 decide dedicar-se ao setor do vinho, começando por fazer "tudo ao contrário". Começou por tirar cursos de especialização de vinhos como o WSET (Direct Wine) e o Wine Expertise (ISAG) em 2018/2019. Depois forma-se na Universidade de Nebrijia em Madrid, tirando um MBA de Enologia (2020). Já em 2021, com 39 anos, decide tirar uma Licenciatura em Enologia (UTAD), e contrariando todas as probabilidades, termina o curso em 2024.

Pelo caminho cria a sua primeira marca pessoal de vinho - Chãos - e estagiou no prestigiado Chateau Latour (em Bordéus).

Atualmente exerce consultoria no setor do vinho, onde desempenha um papel não só de enólogo, mas também criando uma estratégia de negócio para os produtores de vinho, com uma visão atual do mercado, onde passa pelos recursos do Marketing Digital e Enoturismo.

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